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28.09.2015

Aprendendo a conviver

Crédito da foto: Divulgação/Gazeta do Povo

Moradora de um condomínio fechado, a socióloga Camila Caldeira Nunes Dias, mestre e doutoranda em Sociologia pela USP e pesquisadora do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos (CESPDH) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), diz que a principal consequência dos condomínios é a dificuldade do encontro entre pessoas que pertençam a classes sociais distintas. Para ela, tal realidade pode acabar produzindo um abismo social. “Cada vez mais as pessoas se fecham em um mundo próprio, restrito à própria família ou aos seus pares. Com isso há cada vez menos diálogo e menos tolerância.”

A maior procura por condomínios fechados é feita por famílias com dois ou três filhos. Mas é justamente na infância que o convívio com as diferenças se faz mais importante. Segundo a psicóloga Cleia Oliveira Cunha, só com a proximidade com o diferente pode-se educar e preparar alguém para se desenvolver e se relacionar em um mundo que é formado por desigualdades. “Se desejamos um mundo melhor temos que preparar nossas crianças para agir em um mundo de diferenças e não em uma grande ‘bolha de igualdade’ basicamente econômica”, diz. Taísa Borges Grün, psicóloga e professora de Psicologia da UFPR, concorda, e sugere aos pais que procurem incentivar nos filhos a vida fora do condomínio. “As crianças e os adolescentes que crescem isolados ou superprotegidos acabam não aprendendo a lidar com as contingências do mundo real, vivem em um mundo à parte. Isso significa que o dia que precisarem enfrentar a vida fora dos muros podem não saber como se comportar e correr mais riscos do que outras crianças e adolescentes que vivem na cidade”, afirma.

A falta de noção para identificar os perigos do meio urbano e para evitar serem “enrolados” por outras pessoas estão entre os prejuízos que as crianças podem ter, além do risco de alienação. “Ficam incapazes de exercer sua cidadania de forma efetiva, simplesmente por não se sentirem parte da cidade, estado ou país no qual vivem”, conta.

Relacionamento forçado

Como advogada do departamento jurídico do Sindicato da Habitação e Condomínios do Paraná (Secovi-PR), Luana do Bomfim e Araújo conhece bem todos os entraves da vida nos condomínios. Segundo ela, a maioria das pessoas que procuram adquirir suas residências em condomínios horizontais está em busca de segurança, maior liberdade e autonomia. Mas a vida real nem sempre condiz com a publicidade do mercado imobiliário. “Neste tipo de moradia, o condômino pretende aliar um certo isolamento à integração com os demais vizinhos no uso de áreas comuns e rateio de despesas. No entanto, a autonomia, muitas vezes, é menor do que o condômino imaginava. A partir daí começam a surgir os problemas”, diz. Entre os problemas estão o uso das áreas de lazer, o estacionamento de carros visitantes, o desejo de se alterar a fachada da residência e até a utilização das ruas internas do condomínio para brincadeiras, uso de patins, skates, bolas etc.

Maria Lucia Freitas Dal Santo e o marido, Admir Evangelista Dal Santo, 43, ambos bancários, quiseram unir as facilidades de ter disponíveis uma área de recreação infantil e um salão de festas à privacidade de uma casa comum. Compraram um sobrado que, apesar de fazer parte de um condomínio, está localizado do lado de fora dele. “Optamos por morar do lado de fora porque no condomínio você não tem liberdade de modificar o seu sobrado ao seu gosto, tudo é padronizado. Optamos pelo sobrado na parte de fora porque temos uma filha, Giovanna, e queríamos espaço para ela brincar, sem perder a privacidade”, conta.

A falta de privacidade também preocupa Karine Krenzinger Nascimento, 25 anos, e o noivo Caetano Sech Borio, 26. Mesmo assim, eles optaram por construir uma casa em um condomínio. “Sabemos que a vida será diferente. Existem regras impostas e é preciso respeitá-las para viver em harmonia. Contudo, a qualidade de vida gerada em função de uma maior segurança, áreas comuns de academia, salão de festas e bosque com mata nativa compensa esta falta de privacidade”, diz Karine.

Apesar da crítica dos urbanistas, de uma maneira geral, quem opta por esse tipo de moradia demonstra alto índice de satisfação. Enquanto a construção da casa, que deve ser iniciada no ano que vem, não começa, Karine e Caetano seguem brincando de condôminos. “O pedido formal de casamento foi feito no terreno e a gente já paga as taxas e participa das reuniões”, conta a noiva. (AC)

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/comportamento/aprendendo-a-conviver/



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